2010 FORMAS DE SER ESTAR
Dois mil e dez, mostra o que trazes nas mãos, vê onde poisas os pés.
O sopro vital anima seres, insufla o espaço, preenche o tempo: palavras, imagens, ideias, objectos, gestos, atenções, decisões… Viver na biodiferença, sobreviver na biodignidade.
2010 FORMAS DE SER ESTAR 2010 FREQUENTLY ASKING QUESTIONS Agenda 2010. Ano Internacional da Biodiversidade, Ano Europeu da Luta Contra a Pobreza e a Exclusão Social ... com 54 ilustradores de diferentes nacionalidades + texto de Eugénio Roda em português e inglês, tradução de Ana Saldanha, Edições Eterogémeas, 2009 (Colecção Desafios) encomendas em www.eterogemeas.com
Oh professora, se com dois triângulos fizemos duas figuras e com três fizemos quatro, então é sempre mais uma... acho que com quatro triângulos só conseguimos fazer cinco... Então quantas folhinhas queres que te dê para desenhares as figuras que vais descobrir? (perguntou a Professora)
Bastam cinco...
(aluno de 3º ano... ficaram encantados quando descobriram que podiam fazer mais de dez figuras com 4 triângulos isósceles justapostos com as regras indicadas...)
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Então? Ele já está muito atrasado! É sempre a mesma coisa (diz a Professora apontando para o relógio). Vou zangar-me consigo a sério! Passa mais de meia hora!
Oh professora... ele ontem molhou-se todo e nem traz a mochila nem as coisas... e, olhe professora, ele tem de se descalçar aqui na aula porque os sapatos estão molhados... é a ver se secam...
... a meio da aula...
Teresa, vê lá se os meus sapatos já estão secos...
Não, meu querido, continuam molhados... mas hão-de secar... (um par de sapatos, a minha alma entristecida, um sorriso na boca e uma festinha na cara dele)
(Professora, Mãe e aluno de 1º ano, num bairro difícil)
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Então? Quatro é maior ou mais pequeno do que dois?
É mais pequeno.
Mais pequeno?
Diz-me lá... preferias que eu te desse dois rebuçados ou quatro rebuçados?
Dois...
Dois?
Sim, preferia dois...
Não preferias quatro?
(Outro aluno:era melhor dois, porque os rebuçados fazem mal aos dentes)
Rimos ambas. Eles também. Eu pensei nisso mesmo antes deles o dizerem. É este hábito de olhar pelo outro lado. De não ver apenas o óbvio da questão.Têm razão, claro. E aquele menino não deve sequer estar habituado a comer rebuçados...
Pequei na palavra... oh vil metal!... Com euros resolvemos a questão. Ou quase.
(Estas crianças têm muito mais em que pensar. E não é no Natal... nem em rebuçados, nem em prendas...)
(Professora e aluno de 1º ano, num bairro difícil)
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Sentado na secretária da Professora, informou-me que se quer ir embora e não quer fazer nada... Soube que é deixado na rua sozinho até às 11h da noite, depois de acabar a escola (frequenta o 2º ano). Estão a tentar resolver a situação. Consegui que fizesse uma figura - parecia uma coroa - e um rei por baixo dela, consegui mais duas figuras. Depois, como não é possível estar o tempo todo alguém sentado ao lado dele, desliga e resolve fazer batuques ritmados com lápis sobre a mesa, até ao final da aula... novamente perdido...
Turma com 1º, 2º e 3º ano misturados. Mais de 2o. Juntaram-se a ela, à última hora, três meninas de quarto ano (mais crescidas, porque frequentam uma turma de percurso alternativo, onde parece que o comportamento não é famoso) cuja professora faltou (alunos distribuídos por várias salas). Pelo meio... uma criança com deficiência (pede-me: tira-me uma fotografia com a minha boneca! A única coisa a que presta atenção... penteando-a compulsivamente), outra menina com algum tipo de atraso (problemas de consanguinidade, droga, álcool... são vários os casos na escola)... nada compreende e anda atrás de mim pela sala a pedir que a ajude porque não sabe fazer, o menino que não quer estar ali, vários com dificuldades, um despachado de volta de mim a suplicar por atenção... e a descobrir entusiasmado tudo o que é preciso, ao ritmo esperado, imaginando objectos por cada figura construída.
Então este... é diferente deste?
É.
E porquê?
Porque neste eu pensei num chapéu e neste eu pensei num tubarão...(argumento infalível... mas, a verdade é que a figura obtida era a mesma... e, neste caso, não posso usar nem o argumento da rotação, nem o da reflexão... Na imaginação dele há uma diferença... a Matemática às vezes reduz tudo a um denominador comum pobre e descolorido... Expliquei-lhe... e percebeu a diferença entre os sonhos e a geometria do real e, também, a possibilidade de usar ambos, conforme o que lhe era pedido e a situação... Ficámos amigos à mesma e continuou atrás de mim... Agora este é um túnel... e este é uma carrinha... e este é um avião... :)
Professora da turma feliz, porque a tarefa correu bem... Tinha receio que não resultasse.... Mas esta é uma tarefa poderosa e rica, democrática... permite a todos a produção de algo com sentido... conexões variadas. Até a menina da boneca, ao ver a exploração livre inicial dos outros, largou a boneca e fez uma espécie de árvore de Natal com triângulos, desenhando-os ao seu jeito (a professora nem queria acreditar). A certa altura, uma delas pediu-me mesmo que desenhasse um trenó com o Pai Natal no seu desenho. Desenhei-o. Sorriso grande. Mais pedidos.
Expliquem-me como é possível este cenário... Por que razão há filhos e há enteados para poupar tostões e recursos (essencialmente humanos), sobretudo onde eles são mais precisos. Quantos teriam coragem para estar ali diariamente com o coração pesado por não poderem estender a mão a todos? Quantos teriam sequer a coragem de aguentar ali mais do que um dia? Por certo, muitos dos que discursam de longe sobre educação e sobre métodos infalíveis para resolver todos os problemas, e que parecem desconhecer o mundo para além das suas redomas, não colocariam o dedo no ar e se ofereceriam para a dura experiência. Recordei-me, de repente, dos mais de 20 anos na Luísa Todi... As meninas do currículo alternativo fizeram um trabalho bonito e ainda as convenci a ajudar os mais pequeninos que me vinham perguntar se as figuras se podiam juntar assim... Pergunta-lhes a elas, que elas são especialistas e como são crescidas sabem melhor. Elas olhavam e diziam com ar orgulhoso e importante: Podes... Essa podes... Está bem construída. No fim mostraram-me o seu trabalho, muito bem colorido e organizado.
Admiro estas mulheres, Professoras, Mães de todos os abandonados pela vida...
A formação é essencialmente sentarmo-nos ao lado delas, fazer o que fazem, oferecer ideias para gerir a diversidade... não apenas com textos, livros (nunca com burocracias distantes, mais papéis, sugestões impraticáveis) mas com exemplos, gestos, universos possíveis de criar... É do que mais precisam. Formar é, antes de qualquer coisa, ser solidário, escutar, ajudar a crescer na acção.
(Turma de primeiro ciclo, num bairro difícil)
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Vinte e cinco anos acabados de fazer. Mais uma das excepções (que não chega à TV) em que um aluno agride verbalmente aos gritos o professor (de forma absolutamente violenta e imprópria) por conta de um telemóvel que, a meio da aula, foi usado para tirar uma foto (já depois de uma primeira advertência) e devido à coragem da jovem professora na resolução da situação, primeiro pedindo, depois enviando o aluno para a Direcção. Confessou-me mais tarde o receio. Justificado. Eu estava lá e sei da histeria e do descontrolo. Da violência do olhar ameaçador. As nossas medidas disciplinares aplicadas como a lei manda: é um aluno que veio "transferido" de outra escola, por conta de um processo disciplinar, e foi integrado na turma (difícil) desta professora numa escola não fácil.
De repente, a Matemática foi a coisa menos importante do dia...
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Ainda algumas imagens de outras tantas viagens feitas na semana que passou...
À hora do almoço de sexta... fui a correr comer qualquer coisa num café onde ia quando era professora na Luísa Todi. A cara da jovem que me atendeu não me era estranha... Não é a professora Teresa Marques? Sou! E tu foste minha aluna! Tem agora 19 anos... e quando lhe perguntei em que altura havia sido minha respondeu: Foi a altura em que a professora estava a cuidar de um pintassilgo bebé que caíu do ninho aqui na escola e levava a gaiola para a aula de Ciências e o soltava para ele voar entre nós e pousar nos nossos cadernos e o alimentava à nossa frente explicando coisas... Eram as aulas de que eu mais gostava.
(identifiquei logo a turma... deu-me notícias de quase todos... )
De repente, todo o cansaço acumulado da semana (ainda por terminar, com os acompanhamentos de aulas à tarde) desapareceu...
eLearning Awards winners announced at EMINENT 2009 conference
Não fomos contemplados, mas já valeu a aventura e a presença no TOP50 que deixou os alunos felizes! The winners in each category are: ACER platinum award for “The e-Mature School - innovative teaching and mentoring”Asiantuntijaverkosto, Maria Teikari, The Classical High School of Tampere, Finland Promethean gold award for “MST - best learning resource or object”Leçons et Exercices interactifs au Fondamental, Michel Neroucheff, Ecole Fondamentale mixte Vanhelmont, BelgiumSMART gold award for “Enabling students to use learning environments” E- Learning for a sustainable planet, Maria Blasini, Istituto Comprensivo Guglielmo Marconi, Italy eInstruction silver award for “Best school learning platform / virtual workspace” For knowledge virtually, Artur Zajączkowski, Gimnazjum imienia księdza Jana Twardowskiego, PolandIntel silver award for “MST - Best online or blended course Teaching Science in Art High School of Ampelokipoi, Vangelis Koltsakis, Art High School of Ampelokipoi, GreeceElluminate silver award for “Collaborative learning using web 2.0”My Class - Super Class!, Stasele Riskiene, Kursenai Pavenciai secondary school, Lithuania Young Digital Planet silver award for “Foreign language learning through ICT”My English Project, Antonio Juan Delgado García, I. E. S. "Cristo Del Rosario", Spain Cisco bronze award for “Cross border cooperation in Europe”Schoolovision 2009!, Michael Purves, Yester Primary School, UK Microsoft bronze award for “Promoting digital literacy”Digital Storytelling - Stop Motion Animation, Salvör Gissurardóttir, Háskóli Íslands Menntavísindasvið, IcelandEuropean Schoolnet award for “Beyond Europe - global collaboration”Globaldreamers - Peace Project, Marsha Goren, Ein Ganim School, Israel The ten finalists, as well as all submitted entries, are brilliant examples of new trends emerging in education, fostering ICT cooperation, networking and partnerships across Europe and beyond. This year, all participating projects were included into the Learning Resource Exchange, to gain additional visibility and encourage other teachers to follow their example. FONTE
Informados de que viria outra professora à aula... e pensando que a dita (eu, que não conheciam) iria substituir a sua Professora, duas meninas de 6 anos, gémeas, disseram: assim nunca mais voltamos à escola!
Depois de me conhecerem, perceberam que eu não era uma bruxa má... tiraram uma fotografia comigo, deram-me a mão e puxaram-me para ver as suas produções. Provoquei-as: então princesas, ouvi dizer que se eu viesse cá nunca mais queriam vir à escola, por pensarem que era para trocar de professora... A resposta não se fez esperar: Oh Teresa, é que nós gostamos muito da nossa professora e não queremos outra...
É uma turma onde a cor branca é minoria e os meninos doces como mel se distribuem entre outras cores e etnias. Uma professora muito especial que acima de tudo privilegia os afectos e estimula a cooperação de forma exigente, intencional e sábia. A ordem é perfeita. A alegria construtiva. O amor pinta todos os recantos da aula. Um céu dentro de um bairro que se sabe e se diz problemático. São as pessoas que fazem os bairros. É nelas que temos de investir...
É para lá que vou agora. Mar de abraços e beijinhos. Já sei. (Que se dane o plano de contigência!)
Ainda os Diva... por conta de um mistério curioso (feito de coincidências várias)... finalmente esclarecido.
Dizia eu há tempos, numa entrada da teia, que estabelecera contacto, no Facebook, com o Tó Freire e o Pedro Solaris dos Diva... mas não contei que o Pedro me agradecera a autoria de um poema (Raiva e Saudade) que foi a letra de uma das primeiras duas canções editadas pela banda já com o nome DIVA... no single de estreia.
A história vem contada aqui... e realmente aparece o meu nome (apenas com o apelido Martinho). O título do poema dizia-me muito... e só podia ser de uma época anterior aos 22 anos... ou então alguma confusão de identidades e outra Teresa Martinho escrevia poesia por essas alturas. Mas como havia o poema ido parar às mãos deles? Lembro-me de, adolescente, escrever em folhas soltas e partilhar poesia com amigos (poemas de que hoje não tenho registo), mas não conseguia precisar a época. Também se fala de um erro na designação das canções...e separação das palavras Raiva e Saudade nos dois lados do vinil e na capa... (atribuindo-se a minha autoria da letra em ambas, quando a faixa A era apenas dos Diva - letra de Pedro Solaris - e o nome da canção era "Chuva" - podem escutar uma conversão digital, com saltinhos nos "riscos do vinil", num espaço criado por um fã dos Diva)...
Há alguns dias, depois de trocar algumas palavras com o Pedro S. no Facebook, percebi finalmente. Ele pertencia ao meu núcleo de colegas/amigos lá pelos meus dezassete/dezoito anos (na altura em que fiz o antigo 12º ano - propedêutico/entrada na Faculdade) e embora não se lembre de que forma o poema lhe foi parar às mãos, sabe de certeza que é meu... Só algum tempo depois de me adicionar no Facebook descobriu quem eu era (por conta de uma fotografia que lhe permitiu situar-me como ex-colega)... e só depois de fazer essa descoberta referiu o poema perdido no tempo, que foi mote para uma das suas primeiras composições para os Diva. Não soube dele por 30 anos (o nome Pedro Solaris é nome de guerra na música... do outro nome recordei-me eu quando conjecturava sobre o caminho do poema e lhe perguntei se se lembrava de alguém com o nome tal tal de um amigo que tocava guitarra e fazia música, que eu tinha uma vaga ideia de ter estado ligado ao início dos DIVA. O Pedro respondeu-me: eu sou essa pessoa!)...
Puxado o fio... começámos na família em busca do single perdido que agora eu me lembro de ter tido na mão. Uma das minhas irmãs recordava-se perfeitamente da história. E acabámos por encontrá-lo perdido entre os vinis antigos que nunca se foram embora, distribuídos entre Lisboa e Sta Cruz. Estava em Sta Cruz e finalmente recuperei a letra/poema de que não me lembrava. Estamos a tentar encontrar alguém que converta o som para digital (não está a ser fácil) para me poder recordar da música por inteiro... Claro que esta estória vem acompanhada com uma imagens do single a atestar da veracidade desta história meio mágica feita de coincidências estranhas, só permitidas pelo universo digital das redes sociais. (Obrigada, mana Lena, por esse processo arqueológico de escavar e recuperar o passado trazendo-o até ao futuro dele, que é este nosso presente!) .
E, sim, no final da minha adolescência, entre os 17 e os 18 (há 30 anos!), a minha poesia era diferente...
Ah! "A gente"... não era com significado "nós"... era mesmo a " a gente" as in "as pessoas anónimas"... no fundo "a gente" era "eu" (quem sabe talvez fosse afinal o "nós")... provavelmente a chorar (metaforicamente) de raiva e saudade... amor (adolescente) interrompido ?... Ou talvez só palavras costuradas ao jeito que me apetecia na altura... já que a minha rebeldia no dia a dia era nenhuma, mas gostava de a esgrimir na escrita... (libertação?)
RAIVA E SAUDADE
Que cara é que o sonho tem diz-me O sonho não tem cara nenhuma O sonho nunca teve cara nenhuma O sonho só tem fogo para subir sangue Onde dizem existir ódio
(refrão) A gente também fica velha Mas não é na cara É na raiva é na saudade
Que cara é que a gente tem diz-me A gente não tem cara nenhuma A gente nunca teve cara nenhuma A gente só tem fogo para subir sangue onde dizem existir ódio
(refrão) A gente também fica velha Mas não é na cara É na raiva é na saudade
1985
Como diz o Pedro (e cito-o sem lhe pedir autorização, porque sei que ele não se vai zangar): ... É giro este reviver... é giro falar destas coisas ao fim de tanto tempo... é giro olhar para estas coisas como se elas não fossem nossas... o tempo que já passou... a memória que começa a falhar...
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(...) ao mesmo tempo que três dos seus componentes, Diamante, Vitorino e Marques (agora nos teclados), decidem fundar um novo projecto, para o qual recrutaram, também, Natália (Tuxa) Casanova (voz) e Pedro Solaris (guitarra), amigos comuns que costumavam frequentar os ensaios dos Odisseia Latina com regularidade. Optando pela designação de Diva e os Gangsters (do filme homónimo de Beneix), gravam uma demo, tendo como objectivo imediato a participação no Segundo Concurso de Música Moderna do Rock Rendez-Vous, acabando, contudo, por não concorrer. Em vez disso, decidem-se por mostrar a maquete à Metro-Som, que se presta a gravar-lhes um single, propondo, ao mesmo tempo, que o grupo se fique, apenas, pela designação de Diva.Sob a batuta de Manuel Cardoso (Frodo/Tantra), que também contribuirá com uma segunda guitarra, vão, então, gravar o seu disco de estreia, composto pelos temas “Chuva” e “Raiva e Saudade”. Possuidor de uma sonoridade pós-punk de tonalidades “dark” (por vezes lembrando uns Breathless), o registo vai ter a colaboração de Teresa Martinho (letra de “Raiva e Saudade”) e do já citado João Calado (vocalizações em “Saudade e Raiva”). Entretanto, dão o seu primeiro concerto ao vivo. Povoada de dificuldades e peripécias, entre as quais a errónea indicação dos temas (aparecendo como “Raiva” e “Saudade”) e a deficiente prensagem de um terço dos exemplares (foram feitas 1500 cópias), o disco acaba por passar desapercebido do grande público, devido à má promoção. Mesmo assim, consegue apresentá-los como proposta de qualidade e um valor sólido a seguir com atenção.(ler tudo AQUI)
Sair de manhã cedinho... encontrar uma Mãe que me disse que o seu filhote passou a estar "apaixonado" pela Matemática. (Mas a mim não me diz ele isso... depois do detesto inicial... quando me meto com ele... finge que hummmmmm não gosto muito, mas já gosto mais... Já não detesto completamente... Eu leio nos olhos dele, e nos sorrisos, o oposto, mas finjo acreditar. Dá-me luta. Dou-lhe luta. É um jogo entre nós)... O meu carrinho velho e azul. Música alto. Setúbal. Uma sala de aula com meninos de 2º e 3º anos. Professora especial. Delícia. Regressar. Daqui a pouco, aula com os meus meninos. Mais delícias... Sair a correr às 15... correr novamente para Setúbal. Sessão de formação das 15:30 às 18:30 com os professores de 2.º Ciclo. Cumplicidade, entusiasmo, partilha.
This is my life. Nos fios tecidos, nas estradas percorridas, nos muitos encontros deste ano, milhões de diamantes com universos por dentro. Só queria mais tempo. Mais tempo. Chegaria mais longe. Faria mais caminho. Melhor caminho. Ainda assim. This is my life. My web of knowledge and joy. Não me queixo. Gosto da vida que vou tecendo. Das pessoas à minha volta.
E gosto do meu jardim metáfora dela. E gosto do meu jardim-água mágica... que bebo no intervalo das viagens para poder seguir os fios do dia, com energia e optimismo até à última gota.
Da Matemática (e das outras coisas de que ela precisa...)
A minha "nova vida" este ano tem-me permitido aprofundar a reflexão crítica sobre a prática do ensino da Matemática. Olhar os outros é olhar também para nós. Olhar os outros desde os primeiros anos de escolaridade, é começar a compreender as razões de algumas diferenças (que observamos depois mais tarde) que podiam e deviam ser atenuadas, por não se relacionarem com as características dos alunos mas, claramente, com as abordagens que os professores colocam em prática, condicionadas pela imensa falta de tempo (e condições em que trabalham) e com o seu próprio conhecimento/desconhecimento/gosto/desgosto pelas questões da Matemática e da Educação Matemática. Sem tempo... não se melhora o conhecimento em nenhuma destas duas áreas. Uma sem a outra não conduzem, por norma, a (boas) práticas persistentes e consistentes no tempo. O "pontual" e o "esporádico" não chegam para fazer a diferença.
Nenhuma reflexão fica completa sem leituras que suportem as nossas intuições e a nossa prática. Sem estudos que confirmem algumas relações entre estratégias e desempenho, que estimulem a mudança sustentada da acção para que se produza diferença... (das leituras falarei depois...)
É nos professores que reside o maior potencial para causar diferença. E se eles forem tratados como até agora, sem tempo para se actualizar, estudar e aprofundar questões científicas e didácticas, não esperemos que os Planos de Emergência apaguem fogos... Nem acreditemos que os Programas, com regras de execução que não permitem o aprofundamento necessário (excesso de solicitações para o tempo real disponível), mudem a maioria das pessoas nele envolvidas.
. Com remendos superficiais pouco se consegue. Tocam-se apenas os já muito motivados, com práticas aceitáveis que, com mais ou menos ajuda, acabariam autonomamente por evoluir até à excelência.
Já aprendi que é possível leccionar-se o primeiro ciclo sem afinidade com a Matemática (diria mesmo, com forte rejeição emocional à disciplina, provocada por um percurso de más experiências enquanto o professor foi aluno). São percursos confessados, com humildade e profunda consciência das suas limitações, por professores maravilhosos e dedicados que querem aprender para poder oferecer mais entusiasmo e rigor aos seus alunos. Já confirmei a minha ideia de sempre que quem lecciona o 1º Ciclo tem a tarefa mais dura e mais importante de todas... aquela que deveria ser mais valorizada.Que muitos professores lutam para fazer melhor, procuram a ajuda possível, alimentam as suas crianças diariamente (com todas as disciplinas possíveis) sem tempo para respirar e com um carinho que é devolvido à nossa frente pelos meninos e meninas que são seus. Mas a pouca ajuda não chega a todos, nem o tempo de que dispõem hoje (nenhum) permite fazer um trabalho profundo e realmente sustentado de actualização em várias matérias, nomeadamente a Matemática.
E fazê-lo com vinte e tal crianças hoje (quantas vezes com mais do que um ano de escolaridade na turma), não é o mesmo que fazê-lo com as crianças que fomos, num outro tempo e mundo. Visitem-nos e perceberão o esforço, o amor, a dedicação. Não é por acaso que no Canadá - Ontário (dos melhores resultados em Educação) a estratégia se virou para os primeiros anos com uma medida simples: redução do tamanho das turmas.
Nas condições actuais, com tudo o que foi feito para retirar aos professores o tempo de que precisam para preparar melhores intervenções e construir materiais diariamente... não é expectável que o panorama se altere para melhor. Diria até que poderemos esperar o contrário, se nada for feito de realmente consistente para transformar os cenários que temos. Os professores do 1º Ciclo são, juntamente com os professores do 2º Ciclo, o pedaço mais importante da viagem que culmina com o gosto/sucesso ou desgosto/insucesso nesta bendita/maldita disciplina. Estudos parecem confirmar que a janela de oportunidade se fecha aos 12 anos... Então, o que estamos a fazer aos nossos professores inventando mil formas de os afastar daquilo que deveria ser a sua verdadeira e principal missão?
Não tenho soluções milagrosas. Uma estratégia nacional de fundo que oferecesse formação exigente em contexto, tempo para a fazer e estudo da aplicação vs resultados, ajudaria. Paliativos, pensos-rápidos, um pouco de alcatrão para tapar os buracos quando aparecem, não são solução... mas é assim que temos vivido em muitos sectores: navegando à vista sem planos, sem prospectiva estratégica, com pessoas ignorantes nas mais básicas matérias educativas (e outras) liderando os (maus) destinos da nossa vida comum.
Eu comecei este texto, pensando que diria duas linhas e depois apresentava os livros e vídeos de que vos queria realmente falar. Será noutra entrada, quando conseguir tempo para partilhar leituras que me têm ajudado. Mas puxei por um fio preso à emoção dos dias que têm corrido velozes e cheios de trabalho, acompanhando os professores e os meninos nas suas escolas e compreendendo as fragilidades, os sucessos, os insucessos, as dificuldades, a falta de tempo para conseguir mais e melhor. Meto as mãos na massa com todos eles e agora sinto que ando a ser professora (de meninos dos 6 aos 15 - percursos alternativos, 5º ano) pela cidade fora, em parceria com colegas que se dispuseram a fazer formação (alguns mesmo sem precisar de créditos - contratados), ajudando-os nas aulas e sendo realmente adoptada como mais uma professora das turmas (fico sempre tocada com o carinho do acolhimento nas segundas visitas e a despedida ternurenta nas primeiras com a pergunta: voltas quando?). No primeiro ciclo as despedidas e olás vêm com abraços "ao molhinho" de seres muito pequeninos a precisar de toda a atenção do mundo... não importa a origem, a raça, o bairro onde vivem.
Se os puder ajudar a todos (professores e alunos) um bocadinho... já fico feliz. Mas este bocadinho não vai chegar e precisarão de (muito) mais...
Só mais umas palavras com açúcar dentro: numa das aulas onde estive, vi entrarem mães com os seus meninos... e aproveitei para pedir autorização para fotografar as mãos e o trabalho delas, explicando as razões. A certa altura entra uma mãe grávida, que veio deixar o seu menino e falar com a professora... Olhámos uma para a outra e o abraço cresceu num segundo: foi minha aluna na Luísa Todi... há muitos muitos anos. É dela o menino na terceira foto...